Sempre é bom ouvir o sociólogo Eduardo Biavatti

O ue o motivou, como sociólogo, a estudar a violência no trânsito?
Quando você frequenta um lugar como o Hospital Sarah, que é um grande depósito de vítimas de acidentes de trânsito, vê logo duas coisas: primeiro, que as vítimas são homens, jovens. E depois, vai descobrindo que essa garotada, de certa maneira, cava a própria cova. Muitas vezes, as causas de acidentes não são nada imprevisíveis: a pessoa estava sem cinto; estava com capacete solto; bebeu e excedeu na velocidade. Quanta ignorância… No Sarah, ouvi muitos garotões, com sequelas de acidentes, dizerem: “Cara, eu não sabia que podia dar nisso”. A desinformação dos jovens brasileiros é grande, muito diferente no que a gente vê nos jovens ingleses, canadenses, americanos, alemães, franceses, que como têm desde a pré-escola, como matéria, a educação de trânsito, são conscientes das consequências quando agem de forma incorreta. Aqui, não.

A impetuosidade é própria do jovem, em qualquer lugar do mundo. No trânsito, o que os diferencia é a educação?
O que diferencia é que lá fora, o jovem recebe educação para o trânsito e também para a repressão das condutas. Bebem? Sim. Mas não tem jovem alemão, por exemplo, que não tema a ação da polícia. A última campanha americana reforçou o fato de que se a pessoa bebe e dirige, “dança”. Porque a certeza da punição também é educativa. Mas aqui não temos nem educação para a obediência à regra. Estamos ainda discutindo se a Lei Seca pode ou não pode…

Ainda há muita resistência à lei.
A moral dos tribunais está em outra direção. Quase 100% dos casos que foram para a segunda instância judicial resultaram na absolvição do condutor. Quem se recusou a soprar o bafômetro “se deu bem”, porque os tribunais entendem que sem o bafômetro não há prova da ingestão de álcool. Algo que contraria o que acontece em outros países.
Há especialistas que defendem tolerância zero no Brasil. Hoje, a lei estabelece 0,6 grama de álcool por litro de sangue para caracterizar crime, em caso de acidente de trânsito. Também acho que tem que ser zero. Nos Estados Unidos, a maior ONG contra o beber e dirigir, a Madd, está numa campanha nacional pelo álcool zero. Lá, cada Estado define o limite. A variação do efeito do álcool depende do sexo da pessoa, se ela se alimentou ou não. É mais fácil fiscalizar se alguém bebeu ou não.

O que faz o brasileiro tão transgressor no trânsito?
Isso tem a ver com a nossa dificuldade de reconhecer que num espaço público, coletivo, existem normas e regras que se impõem à vontade individual. Então, toda a vez que se percebe que não há fiscalização, acontece a transgressão. Inventamos até uma categoria nova que se chama infração do bem. Se bebeu uma, duas latinhas, e dirigiu, o raciocínio é de que a pessoa não quis provocar acidente. “Cara, bebi uma ou duas, não tive má intenção”. No sábado à noite, estaciona-se sobre a calçada. “O que é que tem?”. Usar o celular ao volante? “Pôxa, usei rapidinho”. No banco traseiro as pessoas não usam o cinto “porque ninguém vê”. E o excesso de velocidade? Se a gente filmar a expressão do rosto das pessoas, com a multa na mão, vai ver ódio. Mas quando o deputado, lá no Paraná, bebeu, atropelou e matou rapazes no trânsito, todo mundo achou aquilo um absurdo. Na realidade, as pessoas infringem a lei o tempo todo, mas não se veem como criminosas no trânsito. E basta pegar um celular ao volante para se atropelar um motociclista, por exemplo. Que, aliás, muitas vezes não deveria estar ali, no corredor. Nós não conseguimos nos ver como cúmplices na violência no trânsito.
O crescimento da frota de motocicletas no país é enorme. Criou-se uma verdadeira guerra no trânsito, entre motoristas e motociclistas. Em pelo menos 14 Estados brasileiros, já morre mais motociclista do que pedestre no trânsito. Eles deram um salto nas estatísticas. Em cidades menores, a motocicleta já compõe a principal frota.

O trânsito, caótico, de certa maneira reflete a sociedade em que vivemos?
Não há vida em sociedade sem trânsito. Naturalmente, nele conseguimos ter uma fotografia muito fiel do mundo, de como nos relacionamos uns com os outros. Se quisermos olhar o trânsito como expressão dos valores que temos na sociedade, vamos ver que alguns como a solidariedade, o respeito ao próximo, a gentileza, foram perdidos. No trânsito vê-se um total individualismo das pessoas. E o pedestre, mais frágil, a vítima da própria cidade. Em Salvador, houve uma época em que pedestres morriam embaixo da passarela. Sabe por que? Não foi por preguiça, mas por falta de uma calçada que levasse à passarela. Em outras situações, a falta da calçada faz as pessoas andarem à beira da pista onde circulam os carros.

Por que as pessoas são “tomadas” pelo poder quando estão atrás do volante?
Temos que lembrar que ter um carro ainda é uma distinção social do brasileiro, Aqui, 40 milhões de pessoas não têm dinheiro nem para comprar uma simples moto. São milhares as pessoas que não têm dinheiro para pagar a passagem do ônibus, que andam a pé. Por isso, no carro, a pessoa sente-se poderosa. E as cidades não foram planejadas para quem anda a pé. Tudo bem que ter carro não deveria dar margem à selvageria na conduta, mas isso acontece, porque a fiscalização é muito fraca. É certo que ela aumentou nos últimos dez anos, mas ainda é pouco. Quer um exemplo? São Paulo é a cidade do país com maior aparato de fiscalização no trânsito. Lá, circulam quatro milhões de veículos por dia, e são feitas 11 mil autuações de trânsito. Sabe quantas pelo fato de o motorista falar ao celular quando dirige? 590. Qual o risco de uma pessoa ser flagrada por falar ao celular? Mínimo. Se nós fôssemos mesmo fiscalizados…

Então as saídas são investir em Educação, desde a infância, e reforçar a fiscalização?
Acho que não dá para pensar uma coisa sem a outra. Eu sempre alertei sobre o perigo do álcool no trânsito para a garotada, apelando para a consciência de cada um. Mas, hoje, com a Lei Seca, faz diferença. Porque mais pessoas sabem que podem pagar economicamente e penalmente por sua conduta. A Lei Seca forçou uma mudança na conduta na maioria de nós. É claro que tem um monte de gente que não está nem aí, que não sopra o bafômetro. Mas tem muita gente aderindo à regra. Eu não acho que a lei sofreu um grave revés na Justiça, com a decisão de uma parcela se recusar a soprar o bafômetro. De cada dez oito sopram. Enquanto não tínhamos uma referência da presença de fiscalização, ninguém se preocupava. Não digo que devemos viver numa sociedade policialesca, mas o poder público tem que fazer valer o poder de Estado. Volto a dizer, a repressão, a punição, também educam.

Beber e dirigir nunca foi permitido, mas após a Lei Seca, a sociedade parece menos tolerante em relação aos crimes de trânsito.
Com certeza. Por outro lado, há algum tempo a organização das famílias das vítimas contribui muito para essa consciência. Mas o problema é que os tribunais ainda não se livraram do conceito de acidente. O argumento é de que o condutor não quis matar, porque foi um acidente. Estão atrasados em relação ao que é a violência no trânsito.

Na esfera administrativa também há morosidade na punição de infratores.
Os Detrans têm que responder de maneira mais ágil à demanda. Acho que têm que dar todo o direito de defesa, mas esperar dois anos para cassar uma carteira de alguém que se envolveu num acidente grave, que bebeu e dirigiu, realmente não dá. A sensação da impunidade é grande, ainda.

O que você diria a um pai ou a uma mãe que vão presentear um filho com um carro, que muitas vezes vira arma nas mãos de quem não tem responsabilidade?
Acho que aos 18, 19 anos, os pais não têm mais um poder de sinalizar uma conduta correta para a garotada. Os pais têm que começar a falar sobre a responsabilidade no trânsito bem antes. É preciso alertar os jovens para o que está em jogo, qualificar suas escolhas. Para cada um que morre no trânsito, 19 sobrevivem, e desses 19, pelo menos 30% ficarão incapacitados fisicamente. Acho até que os pais têm que parar de alertar os filhos sobre o risco de morte. Devem alertar sobre a chance de eles arrebentarem o cérebro, a medula espinhal. Você sabe o que é ficar tetraplégico? Correr ou não correr, beber e dirigir, usar o cinto no carro, usar ou não o capacete na motocicleta, condutas básicas, são escolhas. Recentemente, uma pesquisa com universitários no Rio e São Paulo revelou que a metade, com a Lei Seca, continua bebendo, mas não dirigindo o seu carro. Mas ao serem perguntados sobre a volta da balada, 80% admitiram voltar no carro de com um amigo que bebeu. Um grande índice também não usa cinto de segurança no banco traseiro.

Transferem a responsabilidade para o outro.
Sim, e não têm consciência do risco. Por isso, os pais devem apresentar aos filhos adolescentes as consequências das suas escolhas no trânsito.

E serem também bons exemplos…
Ah, sim, o que é muitas vezes mais difícil. Muitos jovens já viram seus pais, tios, irem e voltarem de festas alcoolizados, ao volante. A força desse exemplo é poderosa. E não temos como fugir da necessidade da repressão. As pessoas têm que assumir seus atos. Na Inglaterra, as pessoas sabem que se beberem e forem flagradas ao volante, além de pagar uma multa caríssima, de serem presas, podem perder o emprego, e depois não conseguir outro. A campanha inglesa sobre álcool alerta sobre as consequências.

Vira um estigma.
Sim, pesa o conceito que aquela pessoa vai ter na sociedade, diante dos amigos, da família e do empregador. Mesmo que ela não tenha causado um acidente grave.

Aqui, muitas vezes associa-se à idéia da malandragem, da esperteza.
Um programa na TV mostrou, um ano após a Lei Seca entrar em vigor, o deboche de motoristas que pagavam mototaxistas para levá-los após o ponto onde estavam os guardas, e depois buscarem os carros para eles. Os guardas apareciam como os “patetas” da história, e os motoristas alcoolizados como os “espertos”. Na realidade, as pessoas, de maneira geral, sabotam. Quando alguém está a 120, 130 numa via onde a velocidade máxima é 90 ou 100 quilômetros por hora, faz isso de propósito. E é preciso lembrar sempre que nós vivemos em sociedade, que a minha segurança depende da sua. Não dá para pensar que cada um cuida de si. No trânsito, o motociclista que não usa capacete, que não tem a capacidade de cuidar de si mesmo, certamente não vai se preocupar com o outro. O espaço é limitado, e muita gente disputa esse espaço no trânsito: carros, pessoas, ônibus, motocicletas, bicicletas. Por isso, todos devemos nos cuidar. Porque todo ano morrem milhares de pessoas no trânsito. Mas a gente só vai sair dessa enrascada quando o sistema de Educação embarcar nisso, com projetos pedagógicos de Educação de Trânsito também no ensino médio.

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