Cubo Mágico – Artigo de Eduardo Biavati

No final do século passado foi lançado um brinquedo sensacional – um simples cubo de plástico com cores diferentes para cada um dos seus lados. O cubo era feito de partes que giravam, embaralhando completamente as cores. Era irresistível misturar tudo e mais ainda vencer o desafio de reconstituir cada lado com uma única cor. Nunca vencia quem olhasse apenas um lado do cubo, caçando as peças daquela única cor; o cubo ensinava a pensar de vários ângulos simultaneamente e a encontrar uma solução coordenada e sincrônica para o problema. O desafio do cubo é exatamente o que está em jogo hoje quando pensamos a “educação para o trânsito”.
Durante muito tempo, o esforço da “educação de trânsito” foi o de formar bons seguidores de regras – as regras do código. Por mais inventivas que sejam ainda hoje as atividades com as crianças – teatro, fantoche, jogos, mini-cidades – tudo converge para esse aprendizado da regra. Se todos soubessem a regra desde pequenos, não teríamos problemas no futuro, pensava-se olhando sempre para um único lado do cubo
O que aconteceu com aquela criança aos 15 anos? Esse jovem questionará a regra do uso da faixa de pedestre ali onde não houver faixa alguma para atravessar, assim como questionará a obediência ao sinal vermelho que ninguém respeita de noite. Ele perceberá inevitavelmente que muito pouco impede a transgressão das regras e a imposição do interesse individual sobre o ordenamento coletivo – o uso do celular, a velocidade, o uso do cinto, a moto no “corredor”. Para que serve, afinal, obedecer a regra?
É bom pensarmos rapidamente como abordar essa questão porque as motocicletas massificaram a motorização dos jovens em todo país. Para eles, será necessário um novo discurso. Que tal revelar que a regra tem um fundamento superior, que é a proteção do corpo, da integridade de todos e cada um, que somos reféns de uma mesma fragilidade humana? Então, passaríamos da discussão da regra para a apresentação do que é essa fragilidade, falando, por exemplo, do nosso Sistema Nervoso Central, do cérebro, da medula espinhal, do que é uma lesão cerebral ou uma lesão medular. E desembocaríamos, assim, na questão da incapacitação física que a violência do trânsito produz e poderíamos falar de nossa responsabilidade na inclusão do incapacitado físico.
Esse é um caminho, há outros, mas vale a lição de que devemos aprender a falar de trânsito olhando para além dele, conectando outras dimensões do problema, assim como fazíamos quando tínhamos o cubo nas mãos. Eduardo Biavati
Sociólogo

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